
Numa época de independência e de afirmação sexual das mulheres, assumir relações puramente sexuais não é nada do outro mundo. O pior é viver a realidade.
POR POR MARIA JOÃO LEHNING
Nada de sentimentos. Nada de compromissos. Se o objectivo da mulher é o orgasmo, basta despir a roupa, responder às carícias e deixar o corpo vibrar. Embora não seja um comportamento tipicamen- te feminino ter prazer pelo prazer, faz parte das fantasias de muitas mulheres.
Mas o mito do príncipe encantado não se destrói de um dia para o outro. “Um dia, encontrarás o grande amor”, dizem-nos. Com esta base, será difícil assumir os nossos desejos sem nos culpabilizarmos.
Carolina, uma médica de 30 anos, confessa as suas dificuldades: “Como não me apaixono de cinco em cinco minutos, e a abstinência não pode eternizar-se, tenho aventuras. Mas, em vez de as viver desprendidamente, preciso de acreditar que tenho relações verdadeiras. Invento sentimentos que não cor-respondem à realidade e acabo por sofrer, fazendo tudo para ser rejeitada. É estúpido, eu sei. Porém, não consigo evitar que isso aconteça.”
O seu psicólogo explicou-lhe que ela antecipa a sensação de culpabilidade, imaginando uma fantasia errónea, provavelmente alimentada pela sua educação. E se ela mente a si própria, é para poder viver uma parte da sua verdade. No fundo, ao assumir uma relação puramente sexual, Carolina põe em causa a imagem que tem si própria. Daí o seu mal-estar.
A maior parte das mulheres é mais sensível ao julgamento dos outros. Infelizmente, nesta sociedade, um homem que multiplica as conquistas é considerado um D. Juan, enquanto que uma mulher que faz o mesmo sujeita-se a insultos. Desprezo? Ciúme? Seja quais forem as razões, não é fácil ser alvo de más-línguas. Teresa, estudante, com 22 anos, queixa-se: “Muitas vezes, desejo ir para a cama com um colega, sabendo de antemão que não haverá continuidade ou nada de sério entre ambos. No entanto, na altura de passar à prática, recuo. Naquela faculdade, os rumores cor-rem depressa. Assim, o prazer de algumas horas seria assombrado por críticas e rótulos de mau gosto.”
O que nos distingue
Em termos de sexualidade, existem diferenças fundamentais entre o homem e a mulher.
• O homem tem uma sexualidade baseada na eficácia, indo direito ao ansiado fim
• A mulher mostra-se mais sensível ao ambiente e ao afecto
• Partindo deste princípio, defendido pelo psiquiatra François Poudat no seu livro Bien Vivre sa Sexualité, as mulheres terão menos tendência para multiplicar as conquistas, visto que o desejo nem sempre vem à baila
Aurélia Pires Messias, psiquiatra, diz que é possível que Teresa exagere as consequências dos seus actos e duvida que existam assim tantas críticas. Na sua opinião, o problema de Teresa deve centrar-se no medo de transgredir as regras da sua educação. “Provavelmente, é ela própria que cria barreiras, com medo de se lançar no atraente mundo do interdito.”
Uma diferença evidente entre o homem e a mulher situa-se a nível dos sentidos. Em relação ao homem é sobretudo visual, enquanto que a mulher funciona de uma maneira mais complexa: simultaneamente táctil, auditiva e olfactiva. Excitá-la é obra mais elaborada, sobretudo se ela revelar dificuldade em entregar-se por se sentir insegura nos sentimentos.
Sandra, de 22 anos, estudante de Sociologia, relata-nos as suas decepções: “A única vez que tentei uma relação puramente sexual, caí numa ejaculação precoce. Resulta-do: nenhum prazer e uma perda enorme de energia. Por isso, penso que as mulheres não estão programadas para aventuras sexuais, visto que não há garantia de prazer. Talvez lhe pareça radical, mas terei muita dificuldade em repetir outra proeza do género.”
Qualquer mulher pode reivindicar o sexo pelo sexo, mas todas correm o risco de se apaixonar por aquele com quem vão para a cama. E os homens, não correm? Claro que sim, visto que são mais propensos a confundir sexo com sentimentos. Então, onde está o problema? A psiquiatra Aurélia Dias Messias responde-nos que tudo depende das pessoas: “Algumas mudam de parceiro sexual com muita facilidade e têm dificuldade em se fixar afectivamente, enquanto outras procuram afeição e amor, julgando que apenas querem sexo.”
Antonieta, divorciada, com 33 anos, é um exemplo típico de quem confunde os dois objectivos: “Para me deitar com um homem, necessito de me sentir cúmplice e em harmonia intelectual. Assim, desde que tudo se passe bem na cama, todos os elementos se conjugam para me apaixonar, mesmo que a ideia inicial fosse outra. Escusado será dizer que as decepções são enormes, pois nem sempre eles estão na mesma onda.” Pelo seu lado, Eduarda, quadro superior numa multinacional, protege--se do afecto libertando o corpo: “Tenho um apetite sexual feroz. Se não o sacio, fico uma pilha de nervos durante dias. Necessito tanto de sexo como os homens. Mas atenção: escolho sempre um parceiro por quem não me possa apaixonar. Nada de confusões. Tento separar alhos e bugalhos.”
No seu livro Bien Vivre sa Sexualité, o psiquiatra François Poudat afirma que o mais importante é ser claro consigo próprio: definir antecipadamente as intenções e assumi-las plenamente. Mas qual é a solução para optimizar as oportunidades de ter prazer? Segundo o psiquiatra francês, “a partir do momento em que a mulher se deixa ir, o prazer vem atrás, desde que não lhe calhe um inábil”. E subli- nha a importância da confiança que permite a ambos serem testemu- nhas dessa grande intimidade que é o prazer.
Se o sexo é tão bom, porquê privar-se? A resposta parece óbvia: porque nem toda a gente está à vontade com a moral, o corpo e os seus sentimentos. François Poudat expõe o seu ponto de vista: “Para bem viver uma relação puramente sexual é preciso agir com intenções positivas e amantes, e não ter a impressão de se comprometer ou de se sujar. Além disso, há que agir por vontade intrínseca e não para entrar na norma, ou seja, para ser igual aos outros.”
Leonor, de 28 anos, técnica de informática, parece que encontrou a solução ideal: “Para evitar decepções e falsas relações amorosas, sem ter uma vida de monja, arranjei um fuck friend. Somos muito cúmplices, não nos queremos comprometer e damos prazer um ao outro quando precisamos.”
A psiquiatra Aurélia Dias Messias acha um bom compromisso: “Ter relações com alguém com quem haja um mínimo de cumplicidade, de afeição e de comunicação dá a tranquilidade necessária para esperar pelo grande amor. O perigo está em aguardar um ser idealizado que nunca chegará e de nada construir durante esse tempo.”
Na opinião de François Poudat, não existem situações perfeitas, mas centenas de compromissos. Cabe a cada um de nós encontrar aquele que nos convém.
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