sexta-feira, junho 23, 2006

Swing na TVI (hora de jantar)


A TVI prepara-se para falar de bissexualidade e de ‘swing’ à hora do jantar. Moniz promete arrojo em ‘Tempo de Viver’, que recupera Alexandra Lencastre para protagonista.


As histórias de gémeas trocadas à nascença ou os amores impossíveis entre ricos e pobres fazem parte do passado da ficção nacional da TVI. As audiências conquistaram-se à custa de muitas lágrimas arrancadas aos fiéis do formato novela, mas as ordens da estação dirigida por José Eduardo Moniz vão agora noutro sentido: o de explorar temas ousados e nunca vistos em televisão.

A estratégia iniciou-se com ‘Ninguém Como Tu’, com uma Alexandra Lencastre em estado de graça a protagonizar uma vilã sem pudores nem limites e com temáticas como a homossexualidade e a cleptomania. A linha adoptada veio a revelar-se certeira: ao longo da sua exibição, entre Abril e Novembro de 2005, esta novela conquistou um ‘share’ médio de 46,3% e foi o programa mais visto em Portugal no último trimestre do ano.

Com estreia marcada para dia 18, ‘Tempo de Viver’ vai mais longe e traz para o horário nobre da estação assuntos como ‘swing’ (troca de casais), a bissexualidade, o alcoolismo, as premonições e a prostituição de luxo. Rui Vilhena, o autor de ambas, não tem dúvidas: “Faz parte do universo da novela introduzir temas mais ousados. É quase obrigatório e é o que a torna interessante”.

Na apresentação à imprensa, o director-geral da estação, José Eduardo Moniz, visivelmente entusiasmado, não se cansou de referir que a TVI pretende estar sempre um passo à frente dos nossos tempos: “É uma novela arrojada, moderna, sem clichés tradicionais, atirada para a frente, que vive de personagens livres que interagem de uma forma nunca antes vista na televisão portuguesa.”

PERSONAGENS MAIS MARCANTES

Em ‘Tempo de Viver’, Alexandra Lencastre surge quase irreconhecível como Fátima, uma humilde caixa de supermercado, muito longe da imagem sofisticada da pérfida Luiza de ‘Ninguém Como Tu’. Desta vez, Rui Vilhena reservou para Alexandra Lencastre o papel da heroína romântica da história e a inversão de papéis foi propositada, conta o autor. “Quis oferecer-lhe um bombom e preparei-lhe uma personagem oposta à que ela fez. O gozo do actor está aí, no desafio de criar algo que não tenha nada a ver com o último trabalho”.

A relação de Fátima e Maria Laurinda, a sua filha interpretada por Margarida Vila-Nova, é um dos fios condutores da história. As duas têm personalidades diferentes e vão passar o tempo em conflitos. A protagonista de ‘Mundo Meu’ é agora uma das vilãs. “É a primeira vez que faço uma vilã em televisão e foi um dos motivos que me fez aceitar este trabalho. Se a Maria Laurinda fosse idêntica à Rita não a faria porque não quero correr o risco de ficar catalogada.

Aceitei porque ela se distancia muito de Rita”, conta Margarida Vila-Nova, que não esconde a satisfação por estar a trabalhar com Alexandra Lencastre. “Já fiz de Alexandra em miúda, já fomos rivais e ela já foi a minha ama. Estava prometido fazermos de mãe e filha e isso está a acontecer agora”, revela. A única semelhança com outras novelas é o facto de as mulheres continuarem com as personagens mais marcantes da história. “O universo feminino é mais conflituoso e interessante. Os homens são muito monótonos”, explica o autor.

'SWING'

Entre as personagens que irão dar que falar estão com certeza as de João Ricardo e Gracinda Nave, na pele de Victor e Clara. O casal pratica o ‘swing’ regularmente mas este segredo só será revelado lá mais para a frente. Para abordar o tema, Rui Vilhena não se poupou a esforços e procedeu a pesquisas exaustivas e muitas conversas com ‘swingers’.

Segundo o autor, a ideia é deixar os portugueses a reflectir sobre o assunto: “Não queremos chocar, mas sim trabalhar numa mudança de mentalidades. Fazer com que as pessoas percebam melhor o mundo que as rodeia e as motivações dos outros para determinar atitudes”. A promessa é a de que o ‘swing’ será abordado com subtileza e elegância: “Não haverá cenas explícitas, apenas conversas e olhares subtis. Tudo será feito com muita serenidade porque temos de levar em conta as diversas faixas etárias que assistem à novela”.

Ainda assim, o autor está preparado para as reacções negativas e encara com naturalidade a hipótese de alterar o rumo da história no caso do público não aceitar tanta ousadia. “Claro que posso fazer mudanças se as pessoas não gostarem, mas não acredito que isso vá acontecer, até porque o Victor e a Clara são as personagens mais equilibradas, normais e tranquilas da novela”.

E lembra o caso de João, interpretado por Frederico Barata, o jovem que descobriu a sua homossexualidade em ‘Ninguém Como Tu’: “O público aceitou bem o João e sofreu com ele até ao fim”.

TEMAS POLÉMICOS

Além do ‘swing’, a nova novela também traz à baila a bissexualidade de Afonso (Hugo Tavares), uma rede de prostituição de luxo liderada por Beatriz (Yolanda), as premonições de Hugo (Gonçalo Sá) e o alcoolismo de Bárbara (Dalila Carmo). A delicadeza dos temas não parece provocar constrangimentos entre os actores. Por exemplo, Dalila Carmo acredita que isso representa uma grande mais valia para o trabalho de composições das personagens.

“O Rui Vilhena é muito arrojado, não tem medo de partir para assuntos que normalmente não são abordados nas novelas e cria personagens com uma dinâmica extraordinária. É difícil vermos cenas onde não se passa nada. E isso é muito mais interessante para um actor.”

PRODUÇÃO DE LUXO

Produção de luxo é a classificação mais honesta para esta novela. Temas polémicos à parte, os episódios iniciais de ‘Tempo de Viver’ espelham bem o investimento e o empenho de toda a equipa nesta produção. Dois meses antes de iniciar as gravações, Margrida Vila-Nova submeteu-se a um processo de emagrecimento que a levou a perder quatro quilos. Exigências de uma personagem com um guarda-roupa mais ousado e sensual.

“Quis desafiar-me a mim própria, levar até ao limite a composição da personagem. Sou um bocadinho exagerada nestas coisas, levo o trabalho muito a peito”, conta a intérprete de Maria Laurinda. Margarida Vila-Nova e Alexandra Lencastre são duas das actrizes cujo visual mais muda nesta ficção.

De loiras passaram a morenas, exactamente o oposto do que acontece à personagem entregue a Maria João Bastos. Depois da pérfida Sofia de ‘Mundo Meu’, surge agora na pele de raquel, uma loira, alta e elegante. Também a própria imagem da novela foi cuidada ao pormenor. Os ataques do 11 de Setembro em Nova Iorque são o ponto de partida de uma história que começa em 2001 e salta até aos nossos dias.

A NBP não se poupou a esforços para recriar o interior de uma das Torres Gémeas, local onde morre uma das personagens da novela. Já as cenas de exterior foram encomendadas a uma empresa de efeitos especiais, tudo para que o resultado se assemelhasse o mais possível à realidade e ao idealizado pelo autor. “Já vi essas imagens várias vezes e fico sempre arrepiado”, afirma. Maria João Bastos, que interpreta Raquel, uma mulher que perde o marido nos ataques, emociona-se ao lembrar as gravações desse episódio.

“Foram cenas muito difíceis de fazer, exigiram grande concentração porque são muito fortes. Mas a verdade é que nunca vi uma novela em Portugal com uma imagem e uma fotografia tão bonitas”. Também nos primeiros episódios, o público poderá assistir a várias cenas gravadas na Tailândia, para onde se dirigiu uma equipa de produção da NBP bem como os actores Pedro Teixeira e a estreante Débora Monteiro, intérpretes de Bernardo e Helena, um dos casais românticos da história.

Nada foi deixado ao acaso nesta produção que José Eduardo Moniz considera “diferente de tudo o que foi feito até agora”. E isso inclui um elenco poderoso de actores como Alexandra Lencastre, Margarida Vila-Nova, Maria João Bastos, Maria Emília Correia, Manuela Couto, Ruy de Carvalho, Joana Solnado, José Wallenstein, Dalila Carmo, Rita Blanco, Marcantónio Del Carlo, Benedita Pereira, entre outros.

Para o director da estação, o mais difícil foi mesmo juntá-los. “Deu muito trabalho porque este conjunto de actores representam o melhor que existe em Portugal.” As expectativas são, portanto as mais altas, para esta produção. E nem o Campeonato Mundial de Futebol, a decorrer até ao início de Julho, parece fazer recear audiências mais modestas. “As pessoas que assistirem ao primeiro episódio vão ficar definitivamente agarradas e vão encontrar maneira de assistir ao futebol e à novela. Tenho a certeza absoluta que vai surpreender toda a gente”, garante Rui Vilhena.

OS TEMAS DA POLÉMICA

ALCOOLISMO

Bárbara (Dalia Carmo) é uma mulher frustada, conflituosa. tem um problema de alcoolismo que a faz ter atitudes neuróticas. Mantém uma relação conturbada com o companheiro, a quem impõe todas as suas vontades e caprichos.

BISSEXUALIDADE

Afonso (Hugo Tavares) é bissexual e manipulador. Usa o amor que a mãe tem por ele para se safar.

'SWING' (TROCA DE PARCEIROS)

Clara (Gracinda Nave) e Victor (João Ricardo) praticam ‘swing’ com regularidade. Formam um casal simpático, mas o seu hábito faz com que sejam vítimas de chantagem.

30 ACTORES INTEGRAM O ELENCO

Para além das protagonistas a novela conta ainda com nomes de peso, como Ruy de Carvalho, Laura Soveral, José Wallenstein e Maria Emília Correia.

ACTRIZ MUDA DE VISUAL

Para interpretar o papel de Fátima, uma caixa de supermercado, em ‘Tempo de Viver’, Alexandra Lencastre não hesitou um mudar de visual. A actriz aceitou escurecer o cabelo e esconder a sua imagem de ‘glamour’ para vestir a pele de uma mulher sofredora, que luta a pulso para subir na vida.

Até mesmo o guarda-roupa fica aquém da sofisticação usada por Luiza Albuquerque de ‘Ninguém como Tu’. Agora, Alexandra surge de fato-de-treino ou roupa colorida, com cortes simples, bem ao estilo de quem tem outras prioridades na vida.

Marta Romão

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