quinta-feira, junho 01, 2006

O casamento, os filhos...


Por Isabelle Potel "in revista Máxima"

Adeus paixão, bom dia
tristeza. O casamento, os filhos...
e adormecemos sobre os louros da vitória. Nãããão! Acordamos e pomos fervura na água. E ele?

Por Isabelle Potel

“Olha, ele guardou esta gravata... Já a tinha quando nos conhecemos.” E sentamo-nos, subitamente absortas: onde está aquele homem, onde está aquela mulher? Onde está o prazer que sentiam na companhia um do outro e que julgavam ser para toda a vida?

Vêm-nos à lembrança fragmentos vagos de um programa de rádio em que um psicólogo dizia que o amor é, acima de tudo, trabalho, e requer empenho; que um dia deixamos de estar apaixonados e que um outro sentimento pode nascer, mas exige “mobilização”. Ora, não somos obrigadas a ouvir rádio e a acreditar nos psicólogos. E o que não nos falta são coisas que reclamam uma intensa “mobilização” da nossa parte.

Mas o certo é que sentimos que perdemos um fio importante – não sabemos qual, mas a sensação de um “desfiar” relacional provoca-nos mal-estar.

Há que reagir. Sonhamos em deitarmo-nos três meses de enfiada num quarto de hotel com vista para o mar, com as gaivotas por única companhia… mas paciência, peguemos em armas, se tem mesmo de ser.

O mais difícil é decidirmo-nos a agir, a travar o ramerrão do quotidiano, e encontrar uma forma de lhe agradar de novo. Mas como? E ele, será que ainda nos agrada? Ao pé disto, os trabalhos de Hércules são pêra doce. Seria preciso novidade, o que não se encontra debaixo de cada pedra. Substituir os cortinados da sala ou ir a correr ao cabeleireiro para mudar a cor do cabelo parece, neste caso, manifestamente insuficiente. Sabemos bem que não podemos continuar indefinidamente a tranquilizar-nos com tão pouco. Uma vozinha muito tímida sussurra, numa circunvolução do nosso cérebro: a novidade é fácil, diz ela, basta sermos outra. Basta representar, agir de modo a que ele não nos reconheça.

Ataquemos directamente o núcleo duro. Vamos largar da mão, deixar correr, deixar andar. Vamos superar heroicamente a nossa contrariedade face à desordem, vamos mesmo ignorá-la superiormente. Talvez não aguentemos muito tempo, não nos iludamos, mas será um princípio. Como os exercícios de flexibilização quando voltamos a praticar stretching após anos de interrupção.

Em vez de labutar de manhã à noite para restabelecer a bendita ordem, vamos espojar-nos na alcatifa e brincar com o Lego no quarto do mais pequenino. Vamos murmurar “tchu-tchu” enquanto fazemos deslizar as toscas carruagens do seu comboio vermelho e amarelo ao longo dos carris de madeira. Quando o mais velho, afivelando um ar contrito, vier reclamar ajuda para o exercício de matemática, com uma hesitação inquieta no olhar, sabendo que, em geral, isso provoca gritos e ataques de nervos, mantenhamos uma calma imperial. Ou melhor, demonstremos um entusiasmo capaz de abalar todos os cábulas do planeta. O facto de ele continuar a não ser capaz de distinguir, no sétimo ano, entre a área e o perímetro de um rectângulo vai deixar de nos mergulhar no medo mais terrível em relação ao seu futuro. “Vais acabar por perceber”, dir-lhe-á, “vou explicar-te mais uma vez”.

Em vez de nos esfalfarmos na cozinha para preparar uma sopa repleta de vitaminas, vamos tirar uma pizza do congelador e metê-la no forno com a desenvoltura de uma bailarina havaiana. Ninguém se apercebe e ganha-se energia. Em vez de entrarmos em pânico porque um dos rapazes tem uma erupção cutânea estra-nhíssima ao sair do banho, vamos aguardar um pouco antes de nos precipitarmos para o telefone para ligar ao pediatra.



Depois da paixão vem o amor sereno.
E, nesta fase, combater o dia-a-dia é a palavra de ordem.

Em contrapartida, as supercalmas, as rainhas da despreocupação e do “deixar para depois”, vão apertar um pouco os parafusos. Vão fazer arrumações, vão levar a autocrítica ao ponto de entrar numa loja de produtos biológicos para comprar uns óleos esquisitos e fruta alegadamente sem pesticidas para revigorar o sistema imunitário da sua prole. Vão preocupar-se com um pequeno suplemento de cálcio porque os filhos estão em pleno crescimento e marcar finalmente uma consulta no dermatologista para extracção das ver-rugas cada vez mais numerosas que assentaram arraiais nos pés da mais nova, que já não ousa metê-los na piscina.

Mais ainda: vamos suprimir provisoriamente os intermináveis telefonemas que dão a impressão, aos eventuais ouvintes, que o mundo feminino se resume a uma litania de queixas, lamentações e bisbilhotices maldosas acerca das pobres criaturas que, no trabalho ou entre as nossas amigas, tiveram a infelicidade de nos cair em desgraça.

Em suma, as tagarelas vão ser acometidas de súbitas fases de mutismo, adoptando ares sonhadores nos jantares no restaurante em vez de falar sem parar. Mesmo que o que tenha para dizer venha inteiramente a propósito, privará a humanidade (uma vez não são vezes) de algumas revelações estrondosas para mergulhar em magníficos silêncios. Pelo contrário, as caladas e discretas procurarão abandonar a sua reserva para lançar alguns gracejos divinais que os farão rir a bandeiras despregadas.

Nem pense em deixá-lo plantado no passeio, num sábado à tarde, enquanto esvazia o Corte Inglés. Pelo contrário, simule uma indiferença radical ao passar por esta catedral do consumo, como se ela agora lhe interessasse tanto como a Torre de Belém, por exemplo. Doravante, não desviaremos o olhar, mordendo os lábios, quando ele se instalar dissimuladamente no sofá para saborear um jogo de futebol. Segredar-lhe-emos mesmo ao ouvido “Ninguém pára o Benfica”, se a equipa dele marcar um golo, para lhe demonstrar que partilhamos sem reservas a sua felicidade.

É evidente que tudo isto pressupõe a aquisição de um sangue-frio que muitas vezes nos falta, mas neste jogo de sermos outra pode aprender-se muita coisa, nomeadamente a jogar.

Os homens censuram muitas vezes nas mulheres a falta de despreocupação, a seriedade em excesso, para não dizer uma maneira de encarar as coisas lamentavelmente pesada. Trata-se de uma acusação que lhes é feita desde a noite dos tempos e que resulta de uma colossal má-fé, pois é a tão frequente insustentável leveza masculina que, conforme a regra dos vasos comunicantes, sobrecarrega os ombros femininos para além do razoável.

Passada uma certa idade, porém, temos de reconhecer que eles não mudam. A sua inércia e capacidade de resistência ultrapassam as nossas fragilizadas energias. Convém, portanto, renunciar expressamente e de uma vez por todas ao príncipe encantado. Aceitar o nosso companheiro tal como ele é pode, se esta resolução for sincera, produzir até efeitos revolucionários: talvez voltemos a achar graça a comportamentos que tinham acabado por acordar em nós instintos assassinos... Em contrapartida, o trabalharmo-nos a nós próprias abre possibilidades infinitas.

A boa disposição transforma-se no projecto de toda uma existência e constitui o Graal de uma vida de casal bem sucedida. Nenhum homem normal resiste à alegria de viver, ao humor, à descontracção da companheira. As mal-intencionadas observarão, e a justo título, que é esse contrato iníquo que regula as relações entre homens e mulheres: “Faz tu o trabalho todo, querida – e com um sorriso nos lábios, por favor.” Que se saiba, porém, a neurose e a recriminação crónicas também não dão bom resultado. Quando se trafica com o inimigo, não temos muitas alternativas: ou paramos e escolhemos o celibato ou decretamos tréguas.

Paradoxalmente, é necessária muita astúcia e distância para reforçar uma união que perdeu vivacidade. É aceitar a ideia do desgaste que nos permite não o recear. A obstinação terapêutica não traz nada de bom. Mais vale socor-rermo-nos de um certo fatalismo, muita ironia e alguma indulgência. Isto pressupõe que consideremos o outro uma pessoa livre, que pertence apenas a si próprio e tem boas razões para ser como é. Fazermos de conta que somos outro é proclamar essa liberdade e reivindicar igualmente o direito ao mistério. É recusarmos que o outro nos conheça por dentro e por fora, sermos totalmente descodificáveis, sermos absolutamente previsíveis. É também renunciar a controlar o companheiro, é dar graças pelas suas zonas de penumbra, pelas suas escapadelas, pelas suas falhas. Para estarmos próximos, é preciso mantermo-nos distantes.

A vida moderna e alguns efeitos perversos do feminismo construíram uma imagem aberrante do casal. A pretexto da igualdade e do progressismo, homens e mulheres devem fazer tudo juntos, compreender-se perfeitamente, prestar-se contas a respeito de tudo. Pelo contrário, para que o amor aconteça é preciso que continuemos a ser estranhos, deliberadamente, ferozmente.

Portanto, surpreenda-o, mostre-lhe que ele ignora tudo a seu respeito, que em si se escondem tantas mulheres e tantas histórias que ele nunca saberá – mas mesmo nunca – quem você realmente é: uma outra, sempre uma outra que lhe escapa.


Por Isabelle Potel "in revista Máxima"

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