terça-feira, maio 30, 2006

O momento certo..a mulher e a virgindade


"Por Sandra Nobre, in Máxima"
Fotografia de Paulo Valente

É um dos maiores desafios da sexualidade: determinar qual a pessoa e o momento certo para se entregar ao amor.

Por Sandra Nobre

Tema central da construção moral das sociedades, a sexualidade sempre foi tratada com pudor.

A história encarrega-se de comprovar que, da condenação ao apelo ao amor livre, já se passaram todas as fases.

Doenças como a Sida e a hepatite suscitaram muitas dúvidas e desencadearam o debate.

Muitos jovens viram na preservação da virgindade e na abstinência sexual uma forma de se protegerem.

Cada pessoa à sua maneira, mais cedo ou mais tarde, acaba por se confrontar com a perda da virgindade.

O mais difícil é determinar quando é chegado o mo- mento... Vanda idealizou ser virgem até ao casamento e demorou quase 30 anos a romper esse pacto que tinha feito consigo própria.

Uma história com dois actos: antes e depois do amor.

O amor, esse estranho. Aos 27 anos Vanda ainda é virgem.

De tão espontânea, ninguém imaginaria que por detrás daquela imagem de mulher bem sucedida se esconde alguém que ainda não experimentou o amor.

A virgindade foi algo que procurou preservar em si, como quem guarda o maior de todos os tesouros.

Não é uma questão de fé, nem de orientação religiosa, é uma questão dos valores em que acredita.

E ela acredita que chegará o dia em que vai saber que está diante da pessoa certa.

Por agora, só tem incertezas. “Será que é ele? Será que estou a deixá-lo escapar?”No seu vasto círculo de amigas, sabe que é caso único.

Compartilha com poucas este segredo que guarda em silêncio, não por qualquer espécie de vergonha ou pudor, mas da mesma forma que guarda o melhor de si para quem a merecer. “Quem me conhece, mesmo os meus amigos, nada os levaria a pensar nisso. Mas cada um só mostra aquilo que quer mostrar.”
E o que ela, hoje, deixa revelar de si é a imagem de alguém confiante, forte, ainda que este seja apenas um jogo de aparências, ainda que oculte a sua fragilidade.

É outra mulher que se deu a conhecer desde que perdeu peso e aumentou a auto-estima, também mais calma e menos ansiosa. Amadureceu.
Os projectos foram-se realizando: o apartamento que comprou sozinha, a carreira cada vez mais sólida na área das relações públicas, tudo o que sempre quis para si. “Não estou a descurar o lado afectivo, apenas enquanto não está preenchido estou a realizar-me de outra forma.

Mimo-me muito para me compensar das minhas próprias escolhas: as compras, a roupa, as viagens...” É o preço da independência, ainda que não seja isto que imagine para sempre.

O tempo passa demasiado lento, quando chega a casa depois de um dia de trabalho e não tem ninguém com quem falar, com quem compartilhar a refeição, com quem dividir a cama, com quem desabafar os desalentos quotidianos. “Não pensei que viver sozinha acentuasse isso.

Achei que fosse mais fácil.

A idade começa a pesar e as minhas escolhas estão mais selectivas, não quero estar com alguém só para não estar sozinha”, desabafa.

Não é uma relação avulsa, descartável, um amor de faz de conta, é amor de verdade o que quer.Desde os 14 anos que soube o que é ter liberdade.

Os pais confiaram nela cedo, deixavam-na sair porque sabiam que ela distinguiria sempre o que era melhor para si.

Vanda fantasiou alguém que um dia conheceria e desejou guardar para essa pessoa todo o seu amor em estado puro.

O casamento é outra etapa. “Na sociedade actual, em que cada vez se começa mais cedo, não faz sentido pensar que vou chegar ao casamento virgem.

Se chegar seria perfeito. Mas é, sobretudo, o encontrar a pessoa que acredito que é a pessoa certa.” E se essa pessoa não der o devido valor a este gesto? É um medo que a assalta e admite que possa acontecer.

Se assim for vai aceitar com naturalidade: “Nem todos acreditamos nos mesmos valores.”A tentação existe.

Como uma necessidade que interpela o corpo, que o desassossega.

Quantas vezes idealizou como seria o momento? E se fosse aquele o momento? Vanda não foi muito namoradeira, as vezes que contam na contabilidade da paixão são só duas e viveu essas duas relações fugazmente.

Sentia-se tentada nos momentos mais íntimos.

Ao mesmo tempo, havia algo em si que apenas exigia que fosse honesta consigo e que tivesse a certeza do que estava a fazer. Nunca avançou. Uma vez, foi passar férias com um desses namorados num hotel de luxo, perto do mar, e um quarto para os dois. “Dormimos juntos, quem nos visse diria que éramos um autêntico casal, houve momentos intensos, mas ele respeitou-me sempre.

Sei que foi difícil para ambos.” Às vezes, interroga-se se vale a pena. Há festas, há momentos de brincadeira que suscitam envolvimentos.

Ela resiste. “A mulher tem de se preservar, ir para a cama numa noite é estar-se a denegrir a si própria.” Ela gosta de se olhar ao espelho e sentir-se digna. O corpo e a alma impolutos. À espera. “Não sei se algum dia conseguirei encontrar a pessoa certa. Sei que não há príncipes. Tenho a convicção de que não existem pessoas perfeitas.” Nos seus olhos toda a esperança do mundo.

Amar assim perdidamente. Tudo mudou agora. Quando nos voltamos a encontrar já passou algum tempo e é outra pessoa que está sentada à minha frente. Ainda mais magra, mas independente, mas já plenamente mulher. Passou quase um ano e Vanda descobriu o amor.

Chegou de mansinho. Não foi a mesma pessoa que no último Dia dos Namorados a mimava com prendas e bombons e flores e ursinho, embora tivesse imaginado que talvez pudesse ser “a pessoa certa”.

Não foi, ficaram apenas bons amigos.

Conheceu outro alguém, passado pouco tempo. Entre o primeiro e o segundo encontro ainda demoraram alguns meses a reverem-se, mas havia algo que os fez não se esquecerem.

Aconteceu. Estava nervosa, admite que as vezes seguintes foram muito mais especiais, mas foi como ela tinha previsto.

Foi ele quem a fez acreditar de novo, e, afinal de contas, nunca lhe tinha confiado aquele segredo, nunca denunciara a sua virgindade. “Ele sabia”, diz. Soube o tempo todo em silêncio, percebia o nervosismo de Vanda, percebia que ela se esquivava sempre a momentos mais íntimos, que os rodeios em volta das conversas só podiam significar inexperiência. Falaram depois de consumado o momento entre lençóis de linho branco.

Ele agradeceu-lhe esse “presente grandioso” que uma mulher pode dar a alguém apenas uma vez na vida.“A partir de determinada altura eu perguntava-me: porque é que não acontece? O que é que me prende para não acontecer? Percebi que estava predisposta a isso e que tinha finalmente chegado o momento.” Vanda sabe que se entregou pela primeira vez à “pessoa certa.

Faria exactamente tudo igual e não o faria mais cedo”, garante, porque só quase a fazer 30 anos sentiu desejo de abandonar a condição de virgem.

Já não era um corpo puro, era um corpo ansioso por um momento, por uma pessoa.

Tudo o que tinha defendido até aí estava a ser posto em causa por si própria.

A sociedade, mais uma vez, teve um papel determinante: ela era a única no seu círculo de amigos a não saber como era o acto sexual. “Claro que isso pesa, embora eu não me sinta uma pessoa influenciável, mas foi uma opção, foi quando eu quis e, sobretudo, foi quando me senti preparada para o fazer.”

O amor resumido a um momento, ainda que se tivesse repetido várias vezes desde aí sem pudores.
Mas continua sem ter com quem compartilhar o seu espaço todos os dias.

A vida fez com que se desencontrasse da pessoa que surgiu no seu caminho. “Continuo a querer ter alguém especial ao meu lado, há alturas em que sinto o vazio, mas depois olho para tudo aquilo que construí e sei que só o pude fazer por estar sozinha.” Nos momentos mais frágeis deixa-se levar pelas emoções, perde-se nesse vazio.

Antes procurava conforto junto das amigas, hoje deixa mais para si essa mistura de sentimentos que procura controlar. “Sinto--me mais forte, estou realizada, embora não esteja casada e queira ser mãe e tudo isso também faça parte dos meus projectos, que sei que se vão concretizar.

Quase todas as minhas amigas já casaram e têm o primeiro filho e, à medida que me aproximo dos 30, começo a pensar que ainda não tenho as bases para lhes seguir os passos.”Hoje vive descomprometidamente. Encontra-se de vez em quando com “alguém especial”, mais velho, já com filhas, divorciado, alguém que aprendeu a amar em liberdade. “Quando se proporciona estamos juntos.

Não sei se é duradouro, se é benéfico.

Começo agora a querer mais do que isso, gostava de caminhar noutro sentido, mas não sei que resposta vou ter do outro lado.” O discurso, hoje, é tão diferente.

Guarda o sonho de usar um vestido branco e uma tiara no dia do seu casamento, numa festa perfeita, “com quem tiver de ser”.

Porque nestas coisas do amor, a vida encarrega-se de ensinar que não é ela quem escolhe, é o amor que a escolhe a ela.

E a ele. E, nessa altura, todas as dúvidas ficam com resposta.

Por Sandra Nobre, in Máxima
Fotografia de Paulo Valente

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